Existe uma cena que se repete milhões de vezes por dia nas cidades brasileiras e que, se observada com atenção, conta uma história muito maior do que parece. Um entregador pedala sob o sol das duas da tarde, mochila térmica nas costas, olhos no celular preso no guidão, essa é a verdadeira Ilusão do Empreendedor de Aplicativo. Ele está atrasado para a próxima entrega. O algoritmo não espera. Não há chefe visível — e essa é exatamente a armadilha.
Como o capitalismo moderno convenceu o trabalhador a terceirizar seus próprios direitos — e celebrar isso como liberdade
Esse trabalhador, em muitos casos, não se reconhece como trabalhador. Ele é um empreendedor. Tem seu próprio negócio. É dono do seu tempo. E é precisamente essa narrativa — sedutora, moderna, cuidadosamente construída — que representa um dos movimentos mais sofisticados do capitalismo contemporâneo: convencer o trabalhador a abrir mão de seus direitos e agradecer pela oportunidade.
Quando a Precariedade Ganhou um Nome Bonito

A economia de plataforma não inventou a exploração do trabalho. Isso é tão antigo quanto o próprio capitalismo. O que ela fez foi algo mais refinado: deu à exploração uma estética de modernidade, uma linguagem de autonomia e um aplicativo com design agradável.
Ser “parceiro” de um aplicativo de entregas ou de transporte é apresentado como uma revolução no mundo do trabalho. Sem patrão. Sem horário fixo. Sem as amarras do emprego formal. O trabalhador é livre — livre para escolher trabalhar doze horas em vez de oito, livre para arcar com todos os custos operacionais, livre para não ter férias remuneradas, livre para adoecer sem receber nada, livre para se aposentar quando e como puder.
A bicicleta é dele. O celular é dele. O plano de dados é dele. O combustível é dele. O desgaste físico é dele. A empresa entra com o aplicativo e fica com a maior fatia do que é produzido. Na linguagem tradicional das relações de trabalho, isso tem um nome preciso. Chama-se o colaborador parceiro que faz o seu horário.
O capital conseguiu algo historicamente notável: transferiu todos os riscos do negócio para o trabalhador e ainda o convenceu de que isso é um privilégio. A precariedade foi ressignificada como virtude. A instabilidade virou dinamismo. A ausência de direitos virou autonomia. É uma engenharia ideológica de rara eficiência — e funciona porque toca em um desejo genuíno e legítimo de qualquer ser humano: ser dono de si mesmo.
O “Empreendedor” Convencido a Lutar Contra Si Mesmo
Mas a ilusão do “Empreendedor” é apenas a camada mais visível de um fenômeno mais profundo. O passo seguinte — e mais perturbador — é quando esse trabalhador não apenas aceita a precariedade como condição, mas passa ativamente a defendê-la. A lutar contra os próprios direitos trabalhistas. A enxergar na regulamentação do trabalho não uma proteção, mas um obstáculo à sua liberdade.
É o entregador que torce contra o reconhecimento do vínculo empregatício. É o motorista de aplicativo que protesta nas ruas contra legislações que o protegeriam. É o trabalhador informal que defende o fim da CLT como se a CLT fosse seu inimigo — e não o instrumento histórico que garantiu férias, 13º salário, licença médica e aposentadoria a gerações de brasileiros antes dele.
Como isso acontece? A resposta está na construção de uma narrativa que capturou, com inteligência, as frustrações legítimas do trabalhador brasileiro. A burocracia trabalhista é real. A rigidez de certas regulamentações é real. A sensação de que o Estado arrecada muito e entrega pouco é real. O problema não é o diagnóstico — é a solução apresentada.
Quando se convence o trabalhador de que a resposta para todos esses problemas é menos direitos, menos proteção e mais “liberdade de mercado”, está se usando uma raiva completamente justificada como combustível para um projeto que não é o dele. A narrativa captura a frustração real e a redireciona — com precisão cirúrgica — para longe de quem realmente se beneficia da desregulamentação.
O Sindicato Imperfeito e o Trabalhador Sozinho

E aqui chegamos a um ponto que merece atenção especial — porque exige honestidade dos dois lados do argumento.
Os sindicatos brasileiros têm problemas sérios e conhecidos. Há casos documentados de desvio de recursos, fraudes em contribuições e formação de esquemas ilícitos, de dirigentes que se perpetuam no poder, de organizações mais preocupadas com sua própria estrutura do que com os trabalhadores que deveriam representar. A contribuição sindical obrigatória foi, por décadas, uma fonte de distorções. A crítica ao modelo sindical brasileiro tem fundamento e não deve ser varrida para baixo do tapete.
Mas existe uma diferença enorme entre reformar uma instituição imperfeita e destruí-la — e é exatamente essa confusão que a narrativa anti-sindical cuidadosamente explora.
Porque o sindicato, com todos os seus defeitos, representa algo insubstituível na relação entre capital e trabalho: ele é o único contrapeso coletivo que o trabalhador tem diante do poder individual do empregador. Sem ele, o trabalhador chega sozinho à mesa de negociação — ou melhor, não chega. Porque não há mesa. Há um balcão, e do outro lado está quem dita as condições.
“Esses 80% que estão abaixo de cinco salários sofrem uma humilhação objetivamente. Não têm dinheiro, nem conhecimento incorporado. Assim, vão ser expostos à vergonha, a obrigações. Ou seja, vão ser bastardos de um projeto de desenvolvimento que foi abortado.” — Jessé Souza, em entrevista sobre O Pobre de Direita (Civilização Brasileira, 2024)
A lógica é simples e brutal: ruim com sindicato, pior sem ele. Um trabalhador isolado diante de uma empresa — seja ela uma multinacional de logística ou um aplicativo com bilhões em valores de mercado — não tem poder de negociação. Não tem voz. Não tem proteção. A corda, inevitavelmente, arrebenta no lado mais fraco. Sempre arrebentou. Sempre arrebentará, enquanto essa assimetria existir sem nenhum contrapeso.
O enfraquecimento sistemático dos sindicatos nas últimas décadas — promovido por uma narrativa que os pintou como vilões da modernização econômica — não liberou o trabalhador. Deixou-o mais vulnerável, mais sozinho e mais dependente da boa vontade de quem, estruturalmente, tem todos os incentivos para pagar menos e exigir mais.
A Conta que o Empreendedor nunca Faz

Há um exercício simples que raramente é feito — talvez porque o resultado seja desconfortável demais.
Some o valor das férias remuneradas, do 13º salário, do FGTS, da licença médica remunerada, do seguro-desemprego e da contribuição previdenciária que um trabalhador formal recebe ao longo de um ano. Some também o acesso ao SUS — que, com todos os seus problemas, atende gratuitamente desde uma consulta básica até procedimentos de alta complexidade. Some a escola pública para os filhos, o transporte subsidiado em muitas cidades, os programas de habitação.
Agora compare com o que o “empreendedor” de aplicativo recebe em troca de sua liberdade. Sem férias. Sem 13º. Sem FGTS. Sem licença médica. Sem seguro-desemprego digno. Com contribuição previdenciária que precisa fazer por conta própria — e que a maioria não faz, porque o dinheiro não sobra.
A conta não fecha. Nunca fechou. Mas enquanto a narrativa da liberdade for mais sedutora do que a análise fria dos números, ela continuará não precisando fechar.
Vale lembrar que no Brasil de hoje, trabalhadores com renda mensal de até R$ 5.000 estão isentos de Imposto de Renda — uma conquista concreta que expande a renda disponível de milhões de assalariados formais. É exatamente o tipo de política que beneficia diretamente quem vive de salário. E que só existe porque há um Estado regulado, com receita tributária, capaz de fazer escolhas distributivas. O trabalhador sem vínculo formal, sem registro, sem proteção — esse não tem nem essa conquista para celebrar.
Entendeu a Ilusão do Empreendedor de Aplicativo?
A história do trabalhador convencido de que é empreendedor não é uma história de ingenuidade. É uma história de como narrativas são construídas, financiadas e distribuídas por quem tem muito a ganhar com elas — e de como frustrações legítimas podem ser capturadas e redirecionadas com precisão.
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O entregador que pedala sob a chuva não é um personagem que deva ser ridicularizado. É o produto de um sistema que trabalhou durante décadas para convencê-lo de que seus direitos são seus inimigos, que o coletivo é uma ameaça à sua liberdade individual e que a corda que arrebenta em cima dele é culpa do Estado — nunca de quem a puxou.
Enquanto ele pedala, sozinho, sem seguro, sem férias e sem aposentadoria à vista, do outro lado da tela alguém conta os dividendos. E agradece, sinceramente, pela liberdade que o trabalhador tão generosamente abdicou.
